#09 - Herança de boca

Ontem eu briguei com a minha filha por causa de um copo de suco. Suco de uva, daqueles que mancham tudo, escorrendo pela toalha nova. E no meio do estresse, sem eu pensar, saiu da minha boca: "Você vai entender quando for mãe."
Parei no meio da cozinha, pano na mão. Porque aquela frase não era minha. Era da minha mãe. A mesma que eu ouvi mil vezes e jurei, de pé junto, que nunca na vida ia repetir. E ali estava eu, aos trinta e muitos, falando igualzinha — o tom, a paradinha antes do "mãe", até o jeito de esfregar a mesa com raiva enquanto falava.
Sabe quando você escuta a própria voz e reconhece outra pessoa ali dentro? Assusta. Eu achava a minha mãe a criatura mais brega do mundo. As frases dela então: "enquanto morar debaixo do meu teto", "você vai dar valor quando eu não estiver mais aqui", "lava logo essa louça que ela não se lava sozinha". Eu revirava os olhos. Jurava que ia ser uma mãe diferente, moderna, dessas de conversar de igual para igual. E olha eu aqui, distribuindo as mesmas sentenças que eu odiava.
E não sou só eu, viu. Minha irmã jura de pés juntos que não puxou nada da nossa mãe, e outro dia mandou a filha "parar com a manha" fazendo a mesma careta que a mamãe fazia — a careta, não só a frase, a careta inteira. Uma amiga minha descobriu que ri idêntico ao pai, aquela risada que ela achava a coisa mais sem graça da face da terra. E eu tenho uma tia — Deus me perdoe — que passou a vida caçoando do "oxe" e do "vixe" da minha avó, dizendo que era coisa de gente do interior, e hoje é a mais carregada no sotaque de todas nós. A gente foge tanto de uma coisa que acaba dando a volta no quarteirão e esbarrando nela de novo, de cara.
Fiquei com isso na cabeça o dia inteiro, com o suco já limpo e a birra já esquecida. Em que dia, exatamente, a frase brega da minha mãe virou minha? Estava guardada esse tempo todo, esperando a deixa — ou fui eu que precisei apanhar um bocado da vida para enfim entender o que ela queria dizer? E quantas outras estão ali dentro, engatilhadas, esperando um copo de suco derramado para dar as caras?
E aí me veio uma fisgada meio de lado, dessas que a gente prefere não encarar direito. Será que eu não fiz com o meu próprio jeito de falar a mesma besteira que fiz com a frase da minha mãe — passei anos jurando que não era comigo, quando era comigo o tempo todo?
Porque foi exatamente isso. Quando comecei a trabalhar "para valer", fui aparando o meu jeito de falar. Troquei "borogodó" por "diferencial". Segurei o "oxe" que pulava numa reunião. Fui alisando o meu sotaque de João Pessoa até ele ficar sem cheiro de canto nenhum, um português de aeroporto, que serve para qualquer lugar e não é de lugar algum. E eu chamava aquilo de profissionalismo. Hoje eu chamo pelo nome certo: era medo. Medo de que o que era meu não fosse suficiente, de que eu precisasse pegar emprestado o jeito sério dos outros para me levarem a sério.
Só que tem uma graça nisso. Ninguém nunca me parou na rua para elogiar o meu português de aeroporto. As pessoas grudam é no torto. No "oxe" que escapa. Na comparação esquisita que só eu faço. No jeito meio nordestino de contar uma tragédia rindo.
Levei tempo demais para sacar uma coisa boba: a minha voz nunca foi a tralha velha que eu vivia querendo consertar. A gente passa metade da vida querendo se livrar do que herdou, e a outra metade descobrindo que era justamente aquilo que fazia a gente ser alguém no meio de tanta gente igual. E hoje eu sei: o que é mais meu ninguém me vendeu e ninguém me emprestou. Já veio comigo. Só ficou esperando eu perder a vergonha de usar.
E eu não ia te contar tudo isso só para você achar bonitinho e seguir rolando o feed. Porque o que aconteceu comigo na cozinha acontece com você toda semana, na frente da tela.
Você também aparou a sua voz. Chamou de profissionalismo, de "achar o meu tom", de "me adequar ao nicho". Foi tirando o "oxe", tirando a piada torta, tirando aquela história esquisita que só você viveu — até o seu conteúdo ficar com o mesmo português de aeroporto que serve para qualquer feed e não é de lugar nenhum. Aí você abre o Instagram e é tudo igual, a mesma cara de epifania de quinta às sete da noite. Inclusive a sua.
E o mercado inteiro está te empurrando para lá. Com a IA ficou pior: hoje dá para produzir, em noventa segundos, a mesma coisa que mais um milhão de pessoas vão postar naquela mesma noite. Um feed cada vez mais cheio de conteúdo que se parece, e cada marca ali dentro ficando mais rasa. O guru do copia e cola amou a chegada da IA — é o sonho dele em escala industrial.
E é aqui que mora a graça da coisa. Justo quando todo mundo está alisando a voz para caber, a coisa mais rara do mercado virou o que você passou a vida tentando esconder: o seu sotaque, a sua comparação esquisita, a sua mãe morando na sua garganta. A parte de você que ninguém baixa num template, porque ninguém mais viveu ela desse jeito.
Que ninguém me entenda mal: falar errado de propósito ou forçar uma gíria para parecer autêntica o público fareja na hora. O caminho é o contrário disso — parar de limar o que já é seu, voltar a escrever como você fala quando ninguém está te corrigindo, contar a tragédia rindo se é assim que ela sai de você.
Fica um exercício para essa semana, e é de graça: pega o seu último post e lê em voz alta. Se aquilo poderia ter saído da boca de qualquer perfil do seu nicho, você alisou de novo. Porque a sua marca já tem a coisa mais rara do mercado: uma voz que ninguém consegue copiar. Falta só você parar de pedir desculpa por ela.
É mais ou menos isso que eu faço para viver: sentar com criadora, especialista e infoprodutora, e ajudar a desencavar essa voz do fundo do armário — botar ela para trabalhar no conteúdo, na oferta, na marca inteira. Sem alisar o sotaque de ninguém.
Se alguma coisa aí bateu, dá uma passada lá em casa e veja como a gente pode trabalhar junto:
◆ Filtro da Semana
💭 Citação: "Repetir repetir — até ficar diferente." — Manoel de Barros
🎥 Vídeo: Ariano Suassuna, aula-espetáculo "Riquezas e encantos da cultura brasileira" — o paraibano defendendo, com humor e sotaque, a cultura que ninguém copia. Assistir no YouTube
🎬 Para assistir: "Só Dez Por Cento é Mentira", o documentário sobre Manoel de Barros — a poesia de quem fez da própria língua torta um patrimônio. Na Netflix
🎁 Bônus: encaminhe essa carta para aquela amiga que também anda falando um português de aeroporto. Às vezes a gente precisa de alguém de fora para lembrar do nosso "oxe".
R.
P.S. Se você me conhece só por aqui, saiba que eu vivo mesmo é do outro lado. Vem trocar ideia comigo no Instagram, @ramonniellymorais — é lá que o "oxe" sai em tempo real.
